Caí sobre a aba do chapéu de um curador de poesias!
Um moço alto, de fino porte,
Carregava no olhar um silêncio
E a esperança tênue dos curadores de poesias.
Era ele quem guardava os versos de uma jovem mística de poucas palavras
Que morava misteriosamente só numa casa colorida
Ao final de uma pequenina rua
Escondida no último canto daquela vila esquecida...
Devo contar que a vila, embora esquecida,
Era a mais bela vila que já vi desde que um dia me fizeram alfinete
E por ser assim, tão esquecida, nela podia-se respirar
O mais puro ar de delicadeza,
O mais inspirador suspiro da tristeza,
O mais desejado lampejo procurado pelos poetas.
Não sei como o curador chegara até ali,
Nem sei quando conhecera tal poetisa.
Mas recordo-me que ele a chamava de Capitu!
Discreto crítico das letras e justamente reconhecido entre os literatos
da época,
O jovem curador era um dos admiradores da obra machadiana
E como numa altiva homenagem,
Nada mais adorável que, por alcunha, chamar aquela tão figurada moça:
Capitu...
O acastanhado do olhar profundo que me fitava ao seu rosto
Era o que mais me chamava atenção naquela face clara
Contornada por encaracolados cabelos acobreados de Capitu...
Carregava nele a doçura de perguntas curiosas de uma criança
E a maturidade constante de uma velha senhora
Que tem por excelência os contos de histórias surpreendentes
Ao longo de seus tantos anos vividos.
Tal olhar que encantara, também, tal curador.
Devoto em sua peregrinação rotineira rumo àquela casa colorida,
Tão habitada por nuances sugestivas,
Todos os dias o belo curador
Caminhava compassadamente até a inaudível casinha composta por cores,
Fincada discretamente ao final dos paralelepípedos,
Como num ritual sagrado que penso haver na vida de um curador de poesias...
Entre um passo e outro e uma respiração complacente,
Recitava trechos de Ricardo Reis num ritmo ansiosamente saudável
Pelo encontro genuinamente calado por Lídia:
"Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros
Onde que quer que estejamos.
Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros
Onde quer que moremos, Tudo é alheio
Nem fala língua nossa.
Façamos de nós mesmos o retiro
Onde esconder-nos, tímidos do insulto
Do tumulto do mundo.
Que quer o amor mais que não ser dos outros?
Como um segredo dito nos mistérios,
Seja sacro por nosso."
Diante da porta de entrada,
Não chamava pelo nome, a poetisa.
Não havia travas que trancafiavam aquela casa.
Tão formosa combinação de paredes que preservava um mundo de segredos
Era levemente protegida pelo complô saudável do Universo...
O curador sempre entrava.
A poetisa esperava costumeiramente sua visita.
Todos os dias...
Sávia Gabi (18/6/2008 - 14:00h) - todos os direitos reservados!
Entrelinhas: segredos de Capitu...
Foto: o auto-retrato I: metade... (Sávia Gabi - todos os direitos reservados!)
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